Carta Aberta da Campanha Nacional pelo Direito à Educação em apoio à vinda de Judith Butler ao Brasil

Carta Aberta da Campanha Nacional pelo Direito à Educação em apoio à vinda de Judith Butler ao Brasil. Confira na íntegra o documento aqui no #BlogPautaPolítica. Artigo 1° – Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

Artigo 2° – Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.

Artigo 19° – Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.
(Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948)

Brasil, 1/11/2017 - Carta Aberta à Direção Nacional do SESC Brasil, à Diretoria Regional do SESC São Paulo e ao Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Iniciativa: Campanha Nacional pelo Direito à Educação (com adesões livres)

Em parceria com o Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo e com a Universidade da Califórnia (Berkeley), o Sesc Pompeia sedia, de 7 a 9 de novembro, o seminário “Os fins da democracia”, com a presença da filósofa estadunidense Judith Butler, entre outros nomes internacionais e brasileiros. Uma das principais teóricas do feminismo contemporâneo, Butler é professora do departamento de retórica e literatura comparada da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O evento se propõe a discutir as formas institucionais básicas da democracia liberal e seus desafios e, como se pode supor pelo título, Butler não foi convidada para discutir questões específicas de gênero. Certamente, espera-se que esse recorte seja feito, uma vez que os debates atuais sobre poder político, governança, produção econômica, distribuição de riqueza, meio ambiente e sustentabilidade não podem prescindir das discussões sobre gênero, conceito compreendido pela teoria social como estrutura social, portanto, como algo que mantém e reproduz padrões na vida cotidiana e na construção histórica.

Desde que o seminário foi anunciado, grupos radicais ultraconservadores, pautados pela ignorância, têm atacado o SESC em redes sociais, com ameaças e pronunciamentos contrários à participação de Judith Butler, alegando que não querem que a “criadora da ideologia de gênero” venha ao “nosso país”.

Diante desse tipo de reação contra a liberdade de opinião e expressão, nós, educadoras e educadores, artistas, pesquisadoras(e), médicas(os), assistentes sociais, engenheiras(os), jornalistas, estudantes e demais trabalhadoras e trabalhadores dos mais diversos setores, muitos pertencentes a distintos segmentos de fé religiosa – todos defensores dos direitos humanos de forma ampla e irrestrita – com essa carta, queremos:

1 – Esclarecer que não existe o que setores ultraconservadores têm denominado de “ideologia de gênero”, com o objetivo de disseminar o pânico social em todo o país, a partir de interesses que certamente vão muito além do que aparentemente se expressa como “defesa da moral e dos bons costumes”. Esses grupos, na verdade, querem manter seus privilégios, o que significa perpetuar a situação de violência e opressão que desrespeita os direitos humanos de parte significativa da população, que dá lugar ao machismo, à misoginia, à homolesbotransfobia, à pedofilia, enfim, a atitudes que matam e que são naturalizadas e socialmente aceitas como “normais”. O que esses grupos reacionários e que se arrogam donos da verdade e da vontade divina denominam de “ideologia de gênero” nada mais é do que os esforços de pesquisadoras(es), cientistas, educadoras(es) e ativistas de várias áreas por compreender aspectos estruturantes da realidade social e por propor caminhos para a superação de situações de opressão e violência, expressas e sutis, de forma a contribuir para o avanço da Humanidade. Se os seres humanos não se esforçassem para transformar a realidade, até hoje viveríamos em cavernas e faríamos fogo esfregando pedras…

2 – Lembrar de alguns fatos que ilustram os perigos de fundamentalismos de qualquer espécie. No século XVII Galileu Galilei foi condenado à prisão perpétua pela Igreja Católica por defender e comprovar a tese levantada por seu predecessor, Nicolau Copérnico, no século anterior, de que Terra girava em torno do Sol. Se Galileu escapou da prisão e das torturas da Santa Inquisição, foi por ter abjurado publicamente sua ciência, mas o destino de seu contemporâneo, o frade dominicano Giordano Bruno, foi arder na fogueira por defender teses como a infinitude e a transformação contínua do Universo. Há menos tempo, em agosto de 1945, antes que os Estados Unidos lançassem suas bombas atômicas sobre o Japão, dizimando centenas de milhares de vidas, Adolf Hitler detonara outra arma não menos letal – a ideologia do nazismo e sua abominável crença na superioridade da “raça” ariana, com a auto-licença para exterminar mais de três milhões de pessoas (judeus, eslavos, sérvios, ciganos, comunistas…). É dispensável buscar outros exemplos na História, para mostrar que a evolução da Ciência, em todas as suas áreas, só contribui para o desenvolvimento do verdadeiro Espírito Humano – aquele que, ao mentalizar os 7,6 bilhões de pessoas que habitam a Terra em quase 200 países, percebe a estupidez da imposição a toda a Humanidade de uma única fé, uma única crença, um único modo de viver e de resolver os problemas – isso, sim, se fosse realizável, significaria o fim da espécie humana e, provavelmente, do planeta.

3 – Reconhecer e apoiar a inestimável contribuição que a Rede SESC vem oferecendo à sociedade brasileira por meio de sua ampla e plural programação, que busca cobrir diferentes dimensões da produção humana em sua infinita capacidade criativa, abrindo espaço para a diversidade de modos de ser e estar no mundo. Do mesmo modo, a Universidade de São Paulo vem cumprindo sua missão de servir à sociedade paulista e brasileira com o desenvolvimento de pesquisas de ponta nas várias áreas científicas, promovendo ensino de qualidade inquestionável e oferecendo valorosos serviços de extensão à comunidade. Assim, SESC e USP cumprem sua parte na construção do Espírito Humano acima referido, este em contínuo e coletivo fazer. Diante de ameaças ultraconservadoras, SESC e USP não podem retroceder em qualquer de suas proposições, pois isto significaria cerceamento da liberdade não apenas dessas duas instituições, mas um perigoso passo para uma ditadura de visão única – cujo poder exterminador a História já comprovou e a Humanidade já experimentou e que só a união da Razão e da Sensibilidade pode evitar.

Assim, todas as pessoas, grupos e organizações que subscrevem o presente documento afirmam a importância de que nossa sociedade compreenda e reconheça os valores presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos em toda a sua plenitude, ou seja, as diferenças que marcam os seres humanos nos mais variados aspectos da vida e da cultura são abrigadas na base comum humana que garante a todas as pessoas o direito inalienável à dignidade e ao respeito, não somente àquelas “iguais a mim ou ao meu grupo”.

Confira a listagem completa aqui das Adesões voluntárias por meio de formulário eletrônico.

Fonte: Assessoria