Pesquisa mostra estado de calamidade do Rio Capibaribe em Pernambuco



Com apoio do CCBA, o professor da UFRPE Fernando Porto, ex-bolsista do DAAD na Universidade de Bremen, mediu parâmetros de poluição e de nutrientes orgânicos no rio. Com 240 quilômetros de extensão, o Rio Capibaribe é um dos cartões-postais de Pernambuco, festejado em poemas, filmes e músicas. No sábado passado, uma barqueata com cerca de 40 embarcações e um barco-escola da Prefeitura do Recife saiu do Marco Zero para celebrar a importância do rio, na data em que se comemora o Dia do Rio Capibaribe.

Em um desses pequenos barcos, o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Fernando Porto levou uma série de equipamentos para coletar amostras do rio. A ideia é analisar como está a qualidade da água do Capibaribe, levando em conta princípios como a transparência da água, a comunidade do zooplâncton (bioindicadores ambientais), que serve de alimento para os peixes, e o nível de amônia nas águas – em quantidade exagerada, prejudica ou até mesmo impede a respiração dos animais aquáticos. A iniciativa tem o apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha (CCBA).

“Aproveitamos o momento da barqueata não só para celebrar o rio, mas também para estudar sua condição ambiental. Com a coleta das amostras será possível medir a salinidade, PH, contaminantes orgânicos, e também identificar bioindicadores de poluição nesta área”, contou o professor, que tem doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade de Bremen, na Alemanha, onde foi bolsista DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico).

O CCBA – Centro Cultural Brasil – Alemanha é reconhecido pelo Governo Alemão e informa no Recife sobre programas oficiais de bolsas de estudo – graduação, pós-graduação, doutorado, pós-doutorado – do DAAD e de outras instituições oferecendo ainda Cursos de Alemão com Certificados oficiais para estudar, trabalhar e viver na Alemanha. Mais informações com Christoph Ostendorf: christoph@ccba.org.br ♦

A ideia inicial da barqueata, promovida pelo Espaço Ciência dentro do Simpósio Capibaribe – Uma visão multidisciplinar, era de que o passeio saísse do Marco Zero e fosse até o Capibar, em Casa Forte, onde funciona o projeto de reciclagem Recapibaribe. As condições da maré, porém, limitaram o trajeto até a confluência com o rio Beberibe, passando pela ponte Giratória e o centro do Recife.

No barquinho em que embarcamos, capitaneado por Joeclécio Francisco da Silva, pescador há mais de 40 anos, estava também o estudante do quarto período de zootecnia Bruno Volpato, que ajudou na coleta e identificação dos materiais. Foram recolhidas amostras em três pontos do rio: perto da ponte Giratória, no centro do Recife e já na volta, perto da foz do Beberibe.

No trajeto de mais ou menos uma hora, foi possível observar as aves que habitam o mangue, como as garças. “Elas estão mais abundantes por aqui, devido à preservação do mangue. Já avistei inclusive uma ave de rapina, provavelmente um gavião, que é raro hoje em dia nas cidades. Na área do mangue também tem um tipo de caranguejo, conhecido como chié, ainda abundante em certas partes das margens. Tem o aratu, associado as árvores de mangue, o siri (com pesca nas pontes do Pina e do centro), que são animais pequenos”, pontuou Porto.

Contrastando com a beleza do mangue, o cheiro de esgoto e a grande quantidade de lixo nas águas são alertas gritantes de que o Rio Capibaribe precisa de ajuda. Em pelo menos cinco situações o barqueiro teve que desligar o motor para retirar plástico das hélices. Por esse motivo, também, o passeio foi encurtado, já que com a maré baixa o lixo fica mais concentrado e se prende mais ao motor. “É toda vez assim. É muito, muito lixo no rio”, lamenta o pescador Joeclécio Francisco da Silva.

Outro problema grave que o rio enfrenta é o assoreamento, devido ao aporte de carga difusa (lixo), sedimento e ao alto nível de matéria orgânica despejada em suas margens e águas. Em todos os três pontos de coleta, a visibilidade do rio ficou muito aquém do ideal, com menos de 30 centímetros. A amônia coletada também estava em níveis preocupantes. “Isso é tóxico para os peixes e para a fauna aquática. Ela está acima de ¾ por litro, está muito alta”, comentou Porto.

Como os níveis de toxicidade são elevados para a fauna aquática, os peixes que sobrevivem no rio são as espécies menores e mais resistentes. Um exemplo é a tilápia, que é um peixe oriundo do rio Nilo, no Egito. Essa espécie foi trazida para o Brasil na década de 1950 e introduzida no Rio Capibaribe em 1978.

“Era uma época em que a introdução de espécies exóticas não era um tabu, ou proibitiva, como é hoje. A tilápia é resistente, mas consumir um peixe que vive em um ambiente tão poluído não é recomendado. E não é só por conta de possíveis bactérias, mas por meio do esgoto também observa-se microplásticos, que saem na lavagem de roupas ou da decomposição de embalagens, e são ingeridos pelos peixes, que os confundem com alimento. Ao consumirmos esses peixes, estamos também comendo esses microplásticos”, explica Porto.

Para o professor Fernando Porto, não há solução fácil para a recuperação do Rio Capibaribe e é necessária a intervenção rápida do poder público. “A condição ambiental do rio é lamentável. É uma das piores possíveis. O primeiro passo, e o mais urgente, é o saneamento básico. E também evitar o lançamento de lixo direto no rio”, comentou.

As amostras colhidas no rio foram refrigeradas ainda no barco, para que a atividade bacteriana não altere os teores de nutrientes, e ficarão congeladas até o dia da análise no laboratório. “Vamos tirar daqui os valores de nitrito, nitrato, fosfatos, silicato e PH. Isso nos dá uma ideia da quantidade de matéria orgânica em decomposição encontrada na água do Capibaribe”, esclarece o professor. A estimativa é de que em um ou dois meses todas as amostras já tenham sido analisadas.

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